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 O comportamento alimentar nas crianças em idade pré-escolar (de um a seis anos) apresenta certas peculiaridades que costumam inquietar os pais. Nessa fase da vida pode ocorrer recusa a certos alimentos, resistência a provar alimentos novos, ou até mesmo o consumo de itens não alimentícios, como folhas de plantas ou terra. Alguns desses comportamentos podem fazer parte do desenvolvimento normal da criança. Mas, como lidar com eles no dia-a-dia? E quando é necessário buscar ajuda profissional?

 

A criança e seu desenvolvimento

Olhe bem para ela e admita: não é mais um bebezinho. Agora que consegue equilibrar-se sobre os pés, ela anda e explora os cantos da casa, locais que antes eram inacessíveis. Também já é capaz de formular algumas frases, expressando seu repertório de palavras em intensa formação.

A criança, a partir desses aprendizados, está começando a estabelecer sua independência, apesar de ainda necessitar de muitos cuidados para obter suas necessidades básicas (6).

Papais e mamães costumam ficar aflitos com as mudanças que ocorrem no comportamento alimentar de seus filhos nessa fase. As coisas estavam indo relativamente bem com o leite materno e, depois, com as papinhas salgadas ou de frutas e os suquinhos. Mas, de repente, a situação muda e a criança parece se interessar pouco pelos alimentos, além de começar a dar sua opinião a respeito deles: não gosto, não quero...

O período de dois a seis anos de idade caracteriza-se pela diminuição da velocidade de crescimento e isso se reflete na diminuição do apetite da criança. Associa-se a estes aspectos a atenção desviada para outras atividades como andar e mexer em objetos espalhados pela casa. Isso pode tornar difícil mantê-la sentada em frente a um prato de comida. Por essas razões, a falta de interesse pela alimentação nessa fase pode ser natural (1, 5).

Para diminuir a ansiedade, é interessante perceber que, do mesmo modo que a criança está descobrindo o mundo, os pais também estão se adaptando a enxergar a criança no lugar do bebê. Há novidades acontecendo dos dois lados da história! A parte mais importante é tentar curtir o momento, ser paciente com e tornar prazerosas as descobertas.


Os hábitos alimentares da criança

A criança começa a conhecer novos alimentos, geralmente, a partir dos seis meses, pois até então a alimentação deve ser exclusivamente o leite materno. É importante que os pais estejam atentos a oferecer uma variedade em sabor e texturas de alimentos, para que no final do primeiro ano de vida ela esteja apta a comer junto com a família e receber os mesmos alimentos, evitando apenas os temperos e condimentos de sabor forte (1,5).

As mamadeiras, para oferecer leite ou qualquer outro líquido, devem ser substituídas gradualmente pelo copo, para que aos dois anos de idade, já não sejam empregadas na alimentação da criança (1).

A formação dos hábitos alimentares é envolve a interação de fatores genéticos e influências do meio-ambiente.

Para dar um exemplo de fator genético, há fortes evidências de que a preferência por doces e a rejeição ao azedo são determinados geneticamente e já estão presentes no recém-nascido (1).

Os fatores ambientais podem ser: o tipo de alimento complementar e a forma como foram incluídos no primeiro ano de vida, experiências positivas e negativas quanto à alimentação ao longo da infância e hábitos alimentares da família (1, 5, 6).

As preferências alimentares da criança são os principais determinantes da ingestão ou não dos alimentos. E o processo por meio do qual ela estabelece suas preferências é o aprendizado. Por isso, a oportunidade de provar o alimento repetidas vezes intensifica a aceitação (1, 2).

Outro fator que contribui com esse aprendizado é o hábito alimentar da família, especialmente o dos pais. Nessa fase a criança está construindo seus hábitos e utiliza o que observa nos adultos como referência para essa construção. Os autores ressaltam essa função dos pais como modelos, aconselhando que procurem também ter uma alimentação variada e adequada, além de comentar quando se sentem satisfeitos após terem comido, a fim de que a criança passe a prestar atenção quando essa sensação ocorrer nela (1, 3, 6).

Essas atitudes (oportunidade de provar várias vezes o alimento antes de concluir que a criança não gosta e exemplo dos pais) são ainda mais importantes diante da neofobia, caracterizada pela resistência geralmente apresentada pelas crianças em provar alimentos novos (2, 3).

A variedade na oferta de alimentos é igualmente importante. A criança que tem alimentação homogênea, pobre em qualidade, pode desenvolver apatia e desinteresse pela alimentação de um modo geral (1).

Por fim, o consumo de itens não alimentícios, denominado pica, pode ser parte do desenvolvimento normal da criança, que costuma utilizar a boca para explorar os objetos ao seu redor. Porém, se o comportamento persistir, mesmo após orientação para não consumo, é importante procurar avaliação médica para saber a causa, que pode ser, por exemplo, uma deficiência nutricional (4).


Os significados da recusa alimentar da criança


Conforme explicamos acima, a redução do apetite tem explicação fisiológica e pode ser encarada como um fenômeno natural e esperado, desde que não interfira no crescimento ou cause deficiências nutricionais (1, 2).

No entanto, a recusa de alimentos pode também estar relacionada com fatores orgânicos e/ou comportamentais. Vamos explicar como isso se dá.

Das causas orgânicas, as condições desfavoráveis à aceitação alimentar são: refluxo gastresofágico, problemas respiratórios, alergias, entre outros (2). Comumente associa-se à deficiência de nutrientes como ferro ou zinco (1). Essas situações podem ser avaliadas e tratadas com as orientações do médico pediatra em conjunto com outros profissionais, como o nutricionista.

Já a inapetência de ordem comportamental costuma ter origem na dinâmica familiar. Estudos apontam que muitos dos problemas alimentares não dizem respeito ao ato alimentar em si, mas dão decorrentes de conflitos oriundos de relações intrafamiliares.

O momento da refeição se torna, então, a hora ideal para mostrar seus conflitos, angústias e dificuldades, instalando um ciclo vicioso, onde a criança tenta exercer com seu comportamento um tipo de domínio sobre a situação e a família (2). A criança deixa de comer para chamar atenção, e observa que essa tática funciona. A mãe, temendo que o filho não coma nunca mais, permite que ele consuma alimentos de fácil aceitação, sem nenhuma restrição de horário. A criança “alimentada” desta forma vai recusando seqüencialmente as refeições (1).

Essa situação pode ser adequadamente avaliada e tratada por profissionais da área de psicologia, em conjunto com acompanhamento médico e nutricional.


Como proceder com a criança que não come

A avaliação por profissionais da saúde é importante para tranqüilizar os pais, descartando causas orgânicas ou comportamentais, ou mesmo para identificá-las, encaminhando o tratamento adequado.

No entanto, mesmo quando a redução do apetite está relacionada apenas ao desenvolvimento normal da criança, as mães, principalmente, se vêem angustiadas por não saber o que fazer para o filho comer, ou reclamam que eles não consomem alimentos saudáveis. Veja a seguir dicas para lidar com essas situações no dia-a-dia (1, 2, 3).


Dicas para o dia-a-dia com uma criança seletiva


  1. Em primeiro lugar, respeite o direito da criança de ter preferências, isso é importante para o seu desenvolvimento. Respeite também as oscilações passageiras do apetite, que ocorrem normalmente com todas as pessoas.

     

  2. Para encorajar o consumo, ofereça os alimentos em pequenas quantidades. É interessante também procurar incluir nas refeições um alimento de que a criança goste, para estimulá-la.

     

  3. Pratos apresentados de maneira agradável, evitando monotonia também ajudam.

     

  4. Não disfarce os alimentos: é importante que a criança saiba o que está comendo, pois isso favorece o aprendizado e a identificação de texturas e sabores.

     

  5. Evite usar brincadeiras como aviãozinho ou trenzinho ou usar televisão na hora das refeições, isso desvia a atenção e compromete a percepção dos alimentos.

     

  6. Evite as chantagens e artifícios para obrigar a criança a comer. Não ofereça guloseimas em troca do consumo da refeição.

     

  7. É importante não oferecer alimentos a todo momento, pois isso prejudica a ocorrência da sensação de fome. Respeite um intervalo de 2 a 3 horas entre refeições.

     

  8. Se houver recusa da refeição principal, não a substitua por leite ou outros produtos lácteos. Tente oferecer novamente mais tarde.

     

  9. Um ambiente agradável para a refeição favorece que a criança crie percepções positivas sobre o momento de se alimentar.

     

  10. Não deixe que a seletividade da criança seja fonte de tensão na hora da alimentação.

     

  11. Não demonstre irritação ou ansiedade no momento da recusa. É importante que a criança se sinta confortável no momento da refeição. Não force, ameace, castigue ou obrigue a criança a comer, atitudes que reforçam a recusa alimentar e desgastam pais e filhos.

     

  12. As mensagens que separam alimentos em bons e ruins não são indicadas, pois a restrição de determinados alimentos, comumente preferidos pelas crianças, acaba estimulando o seu maior consumo.

     

  13. Estimule a participação da criança mais grandinha durante o preparo e montagem do seu prato, isso incentiva a comer e estimula a participar das tarefas domésticas,

     

  14. Não comparar os filhos à mesa. Cada criança é única no seu modo de se relacionar com o mundo e com o alimento.

     

  15. A criança nessa fase apresenta interesse em manipular talheres e alimentos com as mãos, processo que deve ser estimulado.

     

      

    As dicas são muitas, mas o mais importante...

     

    A atitude mais importante dos pais no sentido de favorecer a formação de hábitos alimentares saudáveis por seus filhos pequenos é manter vivas as possibilidades de alimentos, para que ela exercite o ato da escolha.  E tentar manter a paciência com suas descobertas.

     

    Nesse sentido ajudam as iniciativas que enriquecendo o mundo imaginativo da criança. Plantar horta doméstica, participar do preparo dos alimentos, ter à mão livros com figuras de alimentos para poder manipular livremente (hoje em dia he bastante disponibilidade desse tipo de material nas livrarias), disponibilizar livros para colorir alimentos para os mais grandinhos... Tudo isso colabora para o desenvolvimento da criança como um todo, e isso se reflete nos seus hábitos alimentares. Porque é por meio da brincadeira que a criança experimenta, interage e compreende o mundo nessa fase tão especial da vida.

     

     

    Fonte: Bianca Bitencourt é aluna de graduação em Nutrição na Universidade de São Paulo e estagiária curricular em Marketing Nutricional pela Nutrociência - Assessoria em Nutrologia.