MENTIRAS NA INFÂNCIA

A mentira nos primeiros seis anos de vida pode ser considerada o equivalente verbal do sonho, quando a criança cria tudo aquilo que necessita para suprir as necessidades de diferentes ordens (Leif, 1968). Podemos compreender que essas alterações da realidade sejam até mesmo uma forma infantil e peculiar de fazer uma tentativa de aproximação e apreensão da realidade, diferente daquela outra forma, a adulta, deliberada e intencional de modificar a realidade com o propósito de seduzir, enganar, trapacear, etc. Mentir nesses casos é quase uma adaptação à realidade difícil de compreender e vivenciar, até mesmo pelas limitações da mente ser imatura. Gradativamente, até os 11 anos de idade mais ou menos, essa tendência de mesclar realidade e fantasia vai se transformando: a ficção já se mostra na forma de intencionalidade, ainda que não necessariamente com objetivos de enganar os outros, mas pode muito bem servir a um ajustamento necessário, que em alguns casos é mais longo e difícil do que em outros. Sem intenção de burlar, mas de traduzir o mundo para si mesma, a criança segue nesses dez primeiros anos de vida, geralmente praticando sua imaginação para dar contorno ás suas ideias e compreender seu entorno. Raras são as crianças que não foram pegas mentindo: precisam se proteger e procuram se compensar perante uma realidade inóspita, o medo, a baixa autoestima. E há também nesse percurso a influência dos pais, não apenas como modelos, mas como promotores de uma educação mais ou menos exigente no sentido moral e até religioso. Estranhamente, os pais deixam passar muitas coisas que os filhos fazem, muitos deslizes, mas dificilmente toleram que as crianças lhes digam mentiras. Quando não compreendem o sentido que essas têm cada faixa etária ou não entendem os motivos da criança falta deliberadamente com a verdade, estão cometendo um erro que pode sedimentar tal comportamento indesejado. Trazer a criança à realidade com brandura é o melhor caminho. Castigá-la não ensina muito nesse campo, até pelo contrário, prejudica. O que não deve ocorrer em casa são as mentiras usadas sem sentido, ou para trapacear ou enganar, fugir da responsabilidade, entre outras coisas, que as crianças facilmente usarão de argumento para se justificar quando forem pegas mentindo e pior: perderão a confiança nos seus pais. Entretanto há um modo de camuflar a realidade que deve desde cedo preocupar os pais e a escola: a criança que não consegue vislumbrar a possibilidade de aceitar o mundo real mesmo quando a maioria de seus iguais já o fazem, ou que os adultos percebem que quase sempre procura mudar, e deliberadamente, toda informação, para conseguir vantagens, dominar, enganar, esconder fatos, prejudicar deliberadamente os outros. Ao chegar à adolescência essas mesmas crianças podem se transformar em mentirosos compulsórios quando adultos. A busca por ajuda profissional deve ser encarada como uma necessidade nesses casos, pois dificilmente aos pais sozinhos poderão resolver esse problema: ao contrário das fantasias infantis que desaparecem com o tempo, esse outro perfil aponta para um caminho irreversível, se não for tratado a tempo. MARIA IRENE MALUF Especialista em psicopedagogia, Educação Especial e Neuroaprendizagem.